Ojos de Brujo

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TECHARI (2006)
A mais excitante banda Catalã de fusão do Flamenco com muitas outras músicas.

 

A fusão de músicas tradicionais com outras linguagens musicais – digamos, “modernas” – pode redundar para a foleirada absoluta ou para exemplos maiores de arte musical – e aqui entram facilmente propostas tão díspares como os Hedningarna ou DJ Dolores, os Gaiteiros de Lisboa ou Lhasa, Mano Chao ou os Asian Dub Foundation. E são grupos e artistas que nos levam a questionar o que é, na realidade, a música tradicional, agora: uma entidade sagrada que não se pode alterar ou uma entidade em permanente mutação e que, desde sempre, incorporou elementos estranhos àquilo que veio, mercêde uma “verdade” histórica, etnográfica ou antropológica qualquer, a chamar-se tradição.

Os Ojos de Brujo são, hoje, um dos exemplos maiores – o mais diversificado mas ao mesmo tempo o mais coerente e rico de cores – de como épossível modernizar o flamenco, a rumba catalá, as bulerias, as soleás, sem perder o duende (o espírito, a alma, a possessão) do flamenco e mantendo um alambique de sangue quente a borbulhar em permanência. E se já Bari, o seu segundo álbum, mostrava a anda de Marina e sus muchachos a misturar, muito bem, géneros musicais de raíz andaluza e catalá com hip-hop, funk, ritmos latino-americanos, etc, etc, o novo álbum Techarí leva o conceito ainda mais lnoge e incorpora cada vez mais músicas nas suas canções. Aqui, uma buleria pode conviver facilmente com o funk; o banghra anglo-indiano pode namorar com o tango; o hip-hop, o drum’n’bass e as electrónicas podem aparecer onde menos se espera (isto se não se conhecer o grupo – que éo meu caso, ainda o estou a descobrir); e – sem hierarquias – o jazz latino, a música cubana e mexicana, o reggae, o trash metal e a música árabe também podem entrar ali como faca em manteiga e como se sempre tivessem feito parte do flamenco. E, sempre, sempre, com o flamenco e seus derivados a servirem de motor de buscas fusionistas ou – como no segundo tema do álbum, “Sultanas de Merkaillo”, em “Tanguillos Marineros”, “Bailaoeres” ou “Nana” (em que o flamenco rima com música do Norte de África) – a serem tratados com paixão e respeito e nestes quatro exemplos mais próximos de uma raiz, de uma verdade primordial, qualquer (relembre-se: o flamenco é uma música híbrida inventadahá cerca de 500 anos por ciganos, muçulmanos e judeus, todos fugidos à Inquisição Espanhola).

Junte-se a isto letras intervenientes e convidados de luxo como Nitin Sawhney, Faada Freddy (do grupo rap senegalês Daara J), Prithpal Rajput (dos Asian Dub Foundation), o guitarrista Pepe Habichuela ou a cantora Martirio (outra renovadora do flamenco) e estamos novamente (porque Bari já era muito bom!) em presença de um dos melhores álbuns dos últimos tempos da chamada, palavrão!, world music.

Por António Pires
In Blitz
Ojos de Brujo
Eneida Tavares

 

 

Um pensamento sobre “Ojos de Brujo

  1. Sudoeste 2007. O meu primeiro concerto no festival. O meu primeiro concerto num festival. Desconhecia completamente o banda em causa e a motivação não era grande… Ao som dos primeiros acordes tudo mudou! Que sonoridade! Que presença em palco! Que concerto fantástico! Onde é q já se viu no meio dum concerto uma ‘battle’ entre um gajo a fazer beatbox e uma bailarina a sapatear?!

    Fiquei incrivelmente apaixonado. Desde então sou fã destes gajos.

    saudações

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