Ali Farka Touré

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O genial músico que mostrou os “elos perdidos” entre a música subsariana e os blues, morreu há um ano e picos. Mas o seu legado musical – e humano – permanecerá para sempre. O músico e cantor maliano Ali Farka Touré morreu no dia 7 de Março (2006), enquanto dormia, vítima de um cancro nos ossos de que já padecia quando fez a sua última digressão europeia, em 2005, que o trouxe a Lisboa para um memorável concerto em Monsanto. Nesse concerto, tocou para cerca de 10 mil pessoas em transe, em encantamento permanente perante a música deste senhor, que sabia que esta era um forma de expressão muito antiga mesmo quando se socorria de uma guitarra eléctrica para a fazer. Ali Farka sabia-o e demonstrava-o na sua música e dizia-o nas raras entrevistas que dava (inclusive no episódio da série documental dedicada aos blues dirigida por Martin Scorsese): os blues norte-americanos (e por arrasto, o rock e muitas formas “modernas” de música anglo-saxónica) tinham a sua origem ali, zona abaixo do deserto do Sara, nas margens do Rio Niger, onde África começa a ser negra. Ali, bas regiões do Império Mandinga, onde os negreiros iam buscar os escravos que levaram para as Américas (do Norte e do Sul),indo com eles a sua música que depois se transformou em muitas músicas (os blues nos EUA e formas musicais sul e centro-americanas noutros países).

Nesse concerto em Monsanto, Ali Farka teve como convidado especial Toumani Diabaté, o mais respeitado instrumentista de kora do Mali, com quem Ali gravou em dueto o último álbum editado em vida, In the Heart of the Moon (premiado com um Grammy, o segundo de Ali Farka, depois de Talking Timbuktu). Foi editado em 2006 um novo álbum, gravado durante duas as mesmas sessões de In the Heart of the Moon, mas com Ali Farka a ser acompanhado por dois tocadores de n’goni (pequena guitarra de madeira com 3 ou 4 cordas). Para trás ficou uma riquíssima discografia, parte dela editada apenas no Mali nos anos 70 e inícios dos anos 80. O reconhecimento internacional chega em meados dos anos 80, com a edição, através da World Circuit, de Ali Farka Touré (1987), a que se seguiram The River (1990), The Source (1992), Talking Timbuktu (1994; ao lado de Ry Cooder), Radio Mali (1996; que compilava gravações dos anos 70), Niafunké (1999), Red & Green (2004; recuperando dois álbuns, Red e Green, editados originalmente apenas no Mali) e In the Heart of the Moon (2005).

Ali Ibrahim Touré nasceu em 1939, na aldeia maliana de Kanau, tendo sido o único sobrevivente de uma família de dez irmãos. Talvez por isso, os seus pais deram-lhe a alcunha de Farka, que significa “Burro” (e que na tradição do povo Arma, de que Ali era originário, significa “um animal forte e tenaz”). De religião muçulmana (religião que praticou durante toda a sua vida), Ali passou por inúmeras dificuldades durante a infância e juventude. Perdeu o pai ainda criança e lançou-se à vida: foi mecânico, condutor de táxis e de ambulâncias. Mas a música surge-lhe como uma necessidade (como na maior parte das vezes) no início dos anos 60. Fez parte de várias bandas, foi artista residente na Rádio Mali e começou então a perceber os laços óbvios que uniam a música da sua região com a música norte-americana que admirava (de John Lee Hocker a James Brown). E, mais importante ainda, sempre se assumiu como um cidadão e artista que, apesar de Arma, respeitava e amava as outras tribos e culturas do Mali. Ali Farka cantava em songhai, peul, bambara, fula, tamaschek e outros dialectos da região. Essa abertura permitiu-lhe ser um dos artistas que contribuiu para a reconciliação nacional no Mali depois da mais recente revolta dos tuaregues.

Um bom exemplo dessa reconciliação é o Festival no Deserto, que se realiza desde há alguns anos em Niafunké ( e onde participam músicos de variadíssimas etnias malianas, para além de “habitués” como Robert Plant ou os franceses Lo’Jo, co-organizadores do festival), a localidade em que Ali Farka viveu durante muitos anos e cuja agricultura ajudou a desenvolver mercê de modernos sistemas de rega que implantou com o dinheiro que ganhava com a música. Ali Farka foi, nos últimos anos, presidente da câmara de Niafunké (facto “celebrado” no tema “Monsieur le Maire de Niafunké”, de In the Heart of the Moon).

Eneida

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